Dia das Crianças: como a literatura infantil pode plantar a semente de um futuro sustentável

Em “A Águia Solidária e o Planeta Azul”, a autora Cilene Queiroz une ciência, arte e afeto para mostrar que o cuidado com o meio ambiente começa na imaginação dos pequenos

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O Dia das Crianças envolve brincadeiras, acolhimento e celebração, mas a data também convida a sociedade a refletir sobre o mundo que está sendo construído para as próximas gerações. Em um cenário global marcado por emergências climáticas e compromissos urgentes da Agenda 2030 da ONU como o ODS 4 (Educação de Qualidade) e o ODS 15 (Vida Terrestre), que prevê deter o desmatamento e restaurar ecossistemas, a formação ecológica infantil deixou de ser opcional e tornou-se estratégica.

Apesar dessa relevância, o cenário educacional no Brasil revela desafios estruturais. Dados dos microdados do Censo Escolar compilados pelo Inep apontam que cerca de um terço (34,2%) das escolas brasileiras ainda não desenvolvem projetos contínuos de educação ambiental. Além disso, levantamentos do Instituto Alana alertam que a escassez de áreas verdes no entorno escolar afasta os estudantes do contato direto com a terra, limitando experiências fundamentais como o cultivo de hortas e o plantio de árvores nativas.

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É justamente para encurtar essa distância e transformar conceitos ecológicos em afeto que a escritora Cilene Queiroz concebeu o livro infantil “A Águia Solidária e o Planeta Azul”. Bióloga, mestre em Agronomia e artista plástica, Cilene reuniu sua vivência com o manejo da terra e as artes visuais para provar que a conscientização começa na imaginação

Foto: Divulgação: LC

Do dado técnico ao encantamento no dia das crianças

Muitas vezes, a discussão sobre preservação chega às salas de aula e aos lares em tom puramente expositivo, ancorada em gráficos de desmatamento ou estatísticas de carbono que pouco dialogam com o universo infantil.

“Quando traduzimos os desafios ambientais apenas em números ou alertas alarmistas, corremos o risco de afastar as crianças”, explica Cilene Queiroz. “Ao transformar essas questões em uma narrativa infantil, o objetivo é traduzir conceitos abstratos em experiências vivas e relacionáveis. Uma floresta deixa de ser apenas um índice ecológico e passa a ser o lar de personagens pelos quais a criança se importa; um rio limpo deixa de ser uma meta técnica e vira o cenário de uma aventura”.

Para a escritora, as crianças possuem um senso ético aguçado e rejeitam discursos impositivos. Na obra, a natureza deixa a posição passiva de cenário e assume voz ativa, com vulnerabilidades e conflitos com os quais os leitores conseguem se identificar.

“No fundo, a ideia foi substituir o peso do alerta pelo encanto da descoberta, mostrando que proteger o planeta começa pela capacidade de se apaixonar por ele”, destaca a autora.

Da semente na página ao plantio no chão

Estudos pedagógicos mostram que iniciativas práticas — como o plantio de mudas e a criação de miniflorestas escolares — aumentam a retenção de aprendizado científico, melhoram a sensação térmica dos colégios e combatem o chamado “déficit de natureza” na infância.

No livro, essa relação prática com o meio ambiente ganha forma através da valorização do protagonismo infantil. A autora defende que atitudes cotidianas funcionam como “superpoderes” reais ao alcance das mãos.

“Mais do que apenas memorizar regras sobre reciclagem ou economia de recursos, meu maior desejo é que as crianças se sintam capazes e protagonistas”, afirma Cilene. “Quero que elas fechem o livro e adotem pequenos gestos — fechar a torneira, apagar a luz de um cômodo vazio, plantar uma semente ou cuidar de uma planta na varanda — não por obrigação, mas porque desenvolveram afeto genuíno pelo meio em que vivem. Se a história plantar a certeza de que ninguém é pequeno demais para fazer a diferença, o livro terá cumprido seu papel mais bonito”.

Família, escola e literatura: uma rede complementar

Pesquisas de opinião no Brasil indicam que quase 70% da população enxerga a escola como o principal espaço formativo para a consciência ecológica das crianças, mas especialistas reforçam que a prática necessita de respaldo doméstico. Para Cilene, a educação ambiental só frutifica quando existe sinergia entre o lar e as salas de aula.

A família é o espaço onde o cuidado germina pelo exemplo no cotidiano, enquanto a escola expande a ação para a esfera comunitária por meio de hortas coletivas, separação de resíduos e projetos de arborização. A literatura, por sua vez, opera como o elo de conexão entre o afeto familiar e a prática escolar.

“A criança se mobiliza quando desenvolve empatia narrativa. Ela se importa com a floresta porque se afeiçoou à árvore que servia de casa para o personagem”, pontua Cilene. “Quando uma história ambiental é lida no aconchego da família ou debatida em uma roda de conversa na escola, ela abre um espaço seguro de encantamento, garantindo que o cuidado com o planeta nasça do amor e do fascínio, e não do medo”.

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Foto: Reprodução: Pinterest @Home Decor Tribe Recipes

A convergência entre ciência e sensibilidade

A integração entre dados agronômicos, preservação e linguagem acessível reflete a trajetória múltipla da autora. Na bagagem de Cilene, a biologia trouxe o entendimento dos ciclos vitais, o mestrado em Agronomia fundamentou o manejo responsável do solo, as artes plásticas deram cor e plasticidade aos cenários, e a escrita lapidou a ponte com os pequenos leitores.

“A ciência trouxe a verdade, a agronomia trouxe o propósito, a arte plástica trouxe a beleza, e a literatura deu a voz”, resume a autora.

Neste Dia das Crianças, o convite de “A Águia Solidária e o Planeta Azul” se estende também aos adultos: desacelerar, olhar para os detalhes com curiosidade e lembrar que a construção de um amanhã sustentável floresce quando semeamos amor pela Terra no presente.

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Laís Queiroz
Laís Queiroz
Jornalista para contar o que merece permanecer.

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