Além do tratamento, câncer de mama impõe desafios emocionais às pacientes

Em entrevista ao MD News sobre o livro O chão que me formou, a psicóloga e psicanalista Suzana Belchior aborda a sobrecarga feminina, os impactos do diagnóstico e a importância do autocuidado

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O Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio de 2026 a 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Sem considerar os tumores de pele não melanoma, a doença é a mais incidente entre as mulheres no país.

Além dos desafios relacionados ao diagnóstico e ao tratamento, a experiência também pode envolver questões emocionais, mudanças na relação com o próprio corpo e dificuldades para priorizar o autocuidado. Em entrevista ao MD News, a psicóloga e psicanalista Suzana Belchior fala sobre esses aspectos a partir de sua experiência pessoal e profissional, tema que também atravessa seu livro O chão que me formou.

O diagnóstico de câncer de mama pode transformar não apenas a rotina e a saúde física de uma mulher, mas também a maneira como ela enxerga a si mesma. Para Suzana Belchior, a experiência representou um ponto de mudança na relação com o próprio corpo, suas escolhas e os padrões que marcaram sua trajetória.

Autora do livro O chão que me formou, Suzana relata que, durante muitos anos, esteve habituada a cuidar de outras pessoas e resolver problemas, sem perceber que deixava as próprias necessidades em segundo plano. O diagnóstico a levou a questionar esse comportamento e a rever a forma como lidava consigo mesma.

“Eu não sou grata pelo câncer, mas reconheço a mulher que me tornei depois de atravessá-lo”, afirma. Segundo ela, o período foi marcado por medos, incertezas e reflexões, mas também pelo início de um processo de reencontro pessoal.

A autora conta que passou a prestar mais atenção ao corpo, respeitar os próprios limites e questionar escolhas que a acompanharam por anos. Hoje, entende que o autocuidado não deve ocupar o último lugar na lista de prioridades.

Acolhimento para além do diagnóstico

A experiência também evidenciou a importância do acolhimento durante o tratamento. Suzana recorda que, ao receber o diagnóstico, sentiu-se injustiçada. Embora mantivesse hábitos que considerava saudáveis, como praticar exercícios físicos e cuidar da alimentação, percebeu que convivia com um nível de ansiedade que havia passado a considerar normal.

Outro aspecto que a marcou foi a falta de sensibilidade que identificou em alguns atendimentos médicos. Em um momento de medo e fragilidade, ela sentiu falta de uma abordagem mais humana, que considerasse não apenas a doença, mas também a pessoa por trás do diagnóstico.

“Naquele momento, eu não era apenas uma paciente com câncer. Eu era uma mulher com medo, com uma história e com muita vontade de viver”, diz.

Suzana também chama a atenção para as dificuldades enfrentadas por mulheres que precisam lutar para ter acesso ao tratamento. Para ela, o acolhimento deve fazer parte do cuidado, especialmente em um período de tanta vulnerabilidade.

Além do tratamento, câncer de mama impõe desafios emocionais às pacientes
Foto: Divulgação

Por que tantas mulheres deixam a si mesmas em segundo plano?

A tendência de priorizar as necessidades dos outros é outra questão abordada pela autora. Na avaliação de Suzana, muitas mulheres crescem acreditando que precisam cuidar de todos, agradar e evitar decepcionar as pessoas para serem amadas.

Esse comportamento, segundo ela, pode se tornar tão habitual que a mulher deixa de reconhecer as próprias vontades e necessidades.

A partir de sua experiência pessoal e de sua atuação como psicanalista, Suzana relaciona esses padrões à história de cada indivíduo, às experiências afetivas e ao medo da rejeição.

A mudança, ressalta, não acontece de uma hora para outra. Um dos primeiros passos é questionar as próprias motivações: “Será que estou fazendo isso porque quero ou porque tenho medo de desagradar?”, propõe.

A reflexão não significa deixar de cuidar de quem se ama, mas compreender que esse cuidado não precisa acontecer à custa do próprio bem-estar. “A diferença é que hoje entendo que não preciso me deixar de lado para demonstrar esse amor”, afirma.

A história pessoal e as marcas da infância

Em O chão que me formou, Suzana convida o leitor a olhar para a própria trajetória e reconhecer como experiências anteriores podem continuar influenciando escolhas, medos, relacionamentos e cobranças pessoais.

A autora conta que demorou a perceber o quanto a menina que foi permanecia presente em sua vida adulta. Ao revisitar a própria história, começou a compreender melhor determinados comportamentos e a maneira como se relacionava consigo mesma e com os outros.

É essa possibilidade de reconhecimento que ela espera despertar nos leitores. Mais do que apresentar respostas prontas, a proposta é estimular perguntas e reflexões sobre a própria trajetória.

“Hoje eu sei que não podemos mudar o que vivemos, mas podemos escolher o que fazer com a nossa história”, afirma Suzana.

A mensagem conecta a experiência narrada pela autora a uma reflexão mais ampla sobre autocuidado, emoções e a influência das vivências pessoais na construção de quem somos. Para Suzana, olhar para o passado com mais compreensão pode ser um caminho para reconhecer padrões e construir uma relação mais consciente consigo mesmo.

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