Às vésperas da eleição, pressão por posicionamento nas redes desafia amizades e famílias

Em clima de polarização nas redes e nos grupos de mensagens, especialista explica por que as conversas viraram testes de lealdade e alerta para o risco de transformar divergências em inimizade

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Com a chegada do 2° turno das eleições, o clima político atinge seu ponto máximo nas ruas e, principalmente, nas telas. Em um cenário onde curtidas, compartilhamentos e até o silêncio ganham peso de declaração formal de voto, a cobrança por tomar partido tem migrado das figuras públicas para o cotidiano de amigos e grupos de família. Mas será que todo cidadão tem a obrigação de expor seu voto no ambiente digital?

Para Bento José Lima Neto, advogado e autor do livro “Democracia Híbrida e Sistema Eleitoral no Brasil”, o fenômeno reflete como as plataformas mudaram a própria dinâmica de convivência. Segundo o especialista, a cobrança deixou de se concentrar apenas em artistas ou influenciadores.

“A pressão por posicionamento político não está restrita às personalidades públicas. Ela também aparece nas relações familiares, nos grupos de mensagens e nos círculos de amizade. Uma curtida, o compartilhamento de uma notícia ou mesmo a ausência de comentário podem ser interpretados como declarações políticas. Em determinados ambientes, a conversa deixa de ser uma troca de argumentos e se transforma em uma espécie de teste de lealdade”, aponta Lima Neto.

A mesma mesa, universos digitais diferentes

Um dos principais fatores que intensificam o atrito antes de ir às urnas é a fragmentação da informação. De acordo com o autor, o desenho dos algoritmos faz com que pessoas convivendo sob o mesmo teto tenham visões de mundo completamente distintas.

“Pessoas próximas podem consumir conteúdos políticos profundamente diferentes, mesmo vivendo na mesma cidade ou na mesma casa. (…) Assim, uma discussão familiar pode começar entre pessoas que não compartilham sequer as mesmas informações sobre determinado acontecimento. Antes de discordarem sobre a interpretação dos fatos, muitas vezes já discordam sobre quais fatos consideram relevantes ou confiáveis. Hoje, duas pessoas podem compartilhar a mesma mesa e, ao mesmo tempo, habitar universos informacionais profundamente diferentes”, explica.

O direito ao silêncio e o risco de esvaziar o debate

Em períodos acalorados, a omissão de um posicionamento explícito costuma ser rotulada como conivência ou falta de compromisso. Bento José Lima Neto reforça que o direito de não se expor é parte fundamental das garantias constitucionais.

“Como regra, ninguém possui obrigação jurídica de expor suas convicções políticas nas redes sociais. Uma pessoa pode exercer sua cidadania por meio do voto, da participação comunitária, de associações ou de outras formas de atuação social, sem necessariamente expor suas convicções nas plataformas digitais. (…) Em uma democracia pluralista, a liberdade de expressão também pressupõe o respeito à decisão individual de não se manifestar publicamente”, destaca.

O advogado alerta que transformar o debate em uma cobrança por alinhamento irrestrito pode gerar o efeito inverso, afastando eleitores do diálogo por receio de hostilidade.

“Quando o debate passa a exigir alinhamento permanente, algumas pessoas podem optar pelo afastamento para evitar conflitos, exposição ou hostilidade. Outras podem deixar de expressar dúvidas ou opiniões intermediárias por receio de serem identificadas com determinado grupo político. Isso empobrece a discussão pública”, observa.

Preservando as relações no domingo de eleição

Para atravessar o momento decisivo sem romper laços afetivos essenciais, o autor lembra que o papel do processo eleitoral não é forçar consensos absolutos, mas permitir a coexistência das diferenças.

“Nas relações pessoais, o equilíbrio exige distinguir a crítica a uma opinião da desqualificação de quem a manifesta. É possível discordar profundamente de determinada posição política sem negar a dignidade de quem pensa diferente. A democracia não exige unanimidade. Exige instituições e relações sociais capazes de conviver com o desacordo sem transformar adversários políticos em inimigos”, conclui Lima Neto.

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Laís Queiroz
Laís Queiroz
Jornalista para contar o que merece permanecer.

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