A segunda fase da pesquisa Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, divulgada em março de 2026, revela que a grande maioria das vítimas de estupro no Brasil não procura ajuda após a violência. Entre os fatores que dificultam a busca por atendimento estão o medo do agressor, o receio de não serem acreditadas, a vergonha e, sobretudo, a falta de informação sobre direitos e leis.
O estudo mostra que, mesmo com a legislação brasileira garantindo o aborto em casos de estupro, muitas vítimas não conseguem acessar esse direito. Apenas 56% da população sabem que o aborto é legal quando a gestante é uma menina de até 13 anos, enquanto 59% desconhecem que não é necessário boletim de ocorrência para realizar o procedimento em hospital público. Além disso, 53% da população não conhecem serviços especializados para atender vítimas de estupro.
Entre os entrevistados que conhecem mulheres que engravidaram após um estupro, a maioria relata que elas não interromperam a gestação. E, entre quem conhece alguma mulher que realizou aborto, 71% afirmam que o procedimento foi feito de forma clandestina. No total, 33% da população, cerca de 55 milhões de pessoas, conhecem alguém que passou por um aborto ilegal.
Ainda assim, o entendimento sobre o que configura estupro permanece incompleto: apenas 57% conseguem identificar corretamente todas as situações que caracterizam o crime, incluindo casos de estupro conjugal.

Imagem: Reprodução da pesquisa “Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro” / Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva
A violência é mais próxima da realidade dos brasileiros do que se imagina. Dois em cada três entrevistados (66%) dizem conhecer uma mulher ou menina que já foi vítima de estupro. Entre as próprias mulheres, 15% afirmam já ter sido vítimas ao longo da vida, e 12% relatam que a violência ocorreu quando tinham até 13 anos de idade.

Imagem: Reprodução da pesquisa “Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro” / Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva
O silêncio ainda é um dos principais obstáculos. A pesquisa aponta que 77% acreditam que as vítimas não procuram delegacias ou serviços de saúde após a violência. Entre os motivos pelos quais meninas não contam que foram estupradas, 58% citam ameaças feitas pelo agressor, 43% afirmam que elas acreditam que não serão ouvidas ou creditadas e 33% apontam a vergonha como fator determinante.

Imagem: Reprodução da pesquisa “Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro” / Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva
Os dados também mostram que 76% das vítimas de estupro até os 13 anos não buscaram qualquer tipo de serviço de apoio e, entre as que tinham 14 anos ou mais, 78% não recorreram a delegacias ou unidades de saúde. Entre as justificativas citadas estão ameaças do agressor (58%), medo de não serem acreditadas (43%) e vergonha (33%).

Imagem: Reprodução da pesquisa “Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro” / Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva
Depoimentos de mulheres que viveram a violência reforçam o impacto psicológico e social do trauma. Uma entrevistada do Nordeste, atualmente com mais de 45 anos, relatou ter sofrido abuso por familiares ainda na infância e não ter buscado ajuda por medo e culpa. Outra vítima, também nordestina, contou ter realizado aborto clandestino aos 13 anos após engravidar em decorrência do estupro, encontrando apoio apenas em uma amiga próxima.
Desinformação amplia o problema
A pesquisa evidencia que o desconhecimento sobre os direitos das vítimas é alto. Apenas 43% da população reconhece todos os casos em que o aborto é permitido por lei. Embora a maioria saiba que a interrupção da gestação é legal em situações de risco à vida da gestante, anencefalia fetal e gravidez resultante de estupro, apenas 56% sabem que também é legal em casos de gravidez de meninas com até 13 anos o que significa que 44% ainda desconhecem esse direito.
A pesquisa também mostra que 66% dos brasileiros acreditam que pessoas contrárias ao aborto em qualquer situação ignoram os impactos da gestação na vida da vítima, índice ainda maior entre mulheres (68%). Metade da população entende que a questão do aborto deve ser tratada como tema de saúde pública, e 76% se posicionam contra a prisão de mulheres que interrompam uma gestação.
Além da violência física, a desinformação e a falta de acesso aos direitos legais reforçam o silêncio e a vulnerabilidade das vítimas, apontando para a necessidade de políticas públicas de informação, acolhimento e proteção.
Por: Lais Pereira da Silva | Revisão: Daniela Gentil
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