Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revela um cenário preocupante para as mulheres durante o Carnaval no Brasil. Segundo o levantamento, 80% das mulheres afirmam temer situações de assédio durante a festa, e 47% já foram vítimas de algum tipo de violência ou abordagem indesejada nesse período.
O estudo também indica que a percepção do problema é amplamente reconhecida pela sociedade: 86% dos entrevistados concordam que existe assédio no Carnaval. Ainda assim, comportamentos e visões que contribuem para a violência seguem presentes. Para 22% dos participantes, pessoas que curtem o Carnaval sozinhas estariam, automaticamente, interessadas em se envolver com alguém — índice que chega a 28% entre os homens, contra 16% entre as mulheres.
De acordo com Maíra Saruê, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, o problema ultrapassa a questão da segurança e atinge direitos fundamentais. “A gente está falando do direito de ir e vir, mas também do direito ao lazer, e do acesso à cidade, da possibilidade de viver na cidade e de ocupar os espaços públicos. São questões super importantes. Querer ou não participar do Carnaval é uma decisão individual de cada um, mas poder ter acesso a ele é um direito muito importante”, afirma.
A pesquisa aponta ainda que o receio do assédio tem impacto direto na participação feminina na festa. Para Saruê, a recorrência dessas experiências, vividas ou presenciadas, faz com que muitas mulheres se afastem do Carnaval. “O assédio é uma experiência tão concreta, seja da própria mulher ou de outras mulheres que ela conhece, que muitas, inclusive, acham que o Carnaval não pode ser para qualquer um. Elas ficam com medo de ir e serem assediadas porque acham que os outros vão ter esse pensamento”, explica.
Entre os dados levantados, chama atenção o fato de que 18% dos entrevistados acreditam que a roupa usada por uma mulher pode indicar intenção de beijar alguém durante a festa. O percentual é maior entre os homens (23%) do que entre as mulheres (13%), evidenciando a persistência de estigmas que associam vestimenta a consentimento, um grande exemplo social do machismo estrutural presente na sociedade.
Por outro lado, o levantamento indica amplo apoio a ações de enfrentamento à violência sexual. Para 86% dos participantes, combater esse tipo de violência é responsabilidade de todos. Além disso, 96% reconhecem a importância de campanhas de combate ao assédio durante o Carnaval, sinalizando que, apesar dos desafios, há consenso social sobre a necessidade de promover um ambiente mais seguro e respeitoso para todos os foliões.
Por João Vitor Mendes | Revisão: Pietra Gomes
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