O silêncio de Michelle Bolsonaro na pré-campanha de Flávio Bolsonaro deixou de ser interpretado como circunstancial e passou a ser visto, nos bastidores de Brasília, como um movimento político com implicações diretas no projeto eleitoral da direita.
Com cerca de 8 milhões de seguidores em seu perfil no Instagram e forte influência entre mulheres e evangélicos, Michelle segue sem qualquer manifestação pública de apoio ao enteado. Flávio via na ex-primeira-dama uma oportunidade estratégica para alcançar esse eleitorado, especialmente em visitas a igrejas e congregações, agendas em que Michelle possui forte apelo. Verificações recentes em seu perfil mostram que não há publicações de apoio à pré-campanha de Flávio Bolsonaro, o que reforça a percepção de afastamento prático.
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O incômodo dentro do Partido Liberal cresce, mas o ponto central da crise está na deterioração da relação com Eduardo Bolsonaro. Segundo interlocutores, o que antes eram divergências pontuais evoluiu para um cenário de confronto recorrente, envolvendo estratégia política, comunicação e, principalmente, disputa por protagonismo dentro do grupo.
A tensão se agravou após declarações atribuídas a Eduardo, ainda que de forma indireta, indicando que Michelle não precisaria ser informada sobre decisões políticas de Jair Bolsonaro. A fala foi recebida como tentativa de esvaziamento político e ampliou o distanciamento.

Hoje, aliados descrevem o ambiente como uma “guerra interna”. Michelle e Eduardo não mantêm contato direto, não se falam por telefone, e a interlocução passou a ser feita por terceiros ligados ao partido, sinal claro de ruptura no núcleo mais próximo da família.
Esse distanciamento tem impacto direto na pré-campanha. Segundo uma fonte ouvida pela reportagem, Michelle chegou a recusar participação em agendas políticas ao lado de Flávio, incluindo uma possível viagem de pré-campanha. O argumento apresentado teria sido de ordem familiar, relacionado aos cuidados com Jair Bolsonaro, que enfrenta uma situação de saúde delicada enquanto cumpre prisão domiciliar.
Nos bastidores, no entanto, a justificativa é relativizada. A mesma fonte afirma que havia alternativas logísticas para viabilizar a participação da ex-primeira-dama, como deslocamentos mais curtos e suporte direto do partido. Integrantes do PL teriam colocado à disposição estrutura para facilitar essas viagens, inclusive transporte aéreo, embora essa informação não tenha sido confirmada oficialmente por Michelle.
A leitura predominante no meio político é de que o afastamento vai além de questões pessoais. Trata-se de uma combinação entre insatisfação com decisões internas e disputa por espaço dentro do projeto eleitoral do grupo. Desde o início das articulações, Michelle já demonstrava desconforto com a condução das escolhas, ponto conhecido nos bastidores, que agora ganha novo peso diante de sua ausência prática na campanha.
O impacto atinge diretamente Flávio Bolsonaro. Apesar de apresentar crescimento em levantamentos eleitorais recentes, o senador enfrenta dificuldades para unificar o próprio campo político. Havia expectativa, segundo aliados, de contar com Michelle principalmente em agendas estratégicas, como visitas a igrejas e encontros com eleitorado feminino, nichos em que ela exerce forte influência. As negociações, porém, avançam com dificuldade.
Enquanto isso, Michelle segue sinalizando proximidade com outros nomes da direita. Um dos exemplos mais recentes envolve Nikolas Ferreira, que também esteve no centro das atenções ao longo da semana após trocas públicas de críticas com Eduardo Bolsonaro. Michelle manteve interações positivas com o parlamentar em publicações recentes, gesto interpretado como sinal político de apoio indireto a figuras em atrito com Eduardo.
Movimento semelhante foi observado em relação a Carlos Bolsonaro. Nas últimas semanas, Michelle compartilhou conteúdos ligados a um nome visto como rival político direto do vereador, o que gerou reação indireta de Carlos. Ele publicou mensagem interpretada como crítica interna, sugerindo que quem não se envolve ou não apoia a campanha não deveria ocupar espaço no partido. A troca de sinais públicos ampliou a percepção de fragmentação no núcleo bolsonarista.
O tabuleiro familiar apresenta pré-candidaturas definidas. Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência da República. Carlos Bolsonaro é pré-candidato ao Senado por Santa Catarina. Michelle Bolsonaro é pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Renan Bolsonaro é cotado como pré-candidato a deputado federal em Santa Catarina.
A única exceção é Eduardo Bolsonaro, que permanece nos Estados Unidos, com estadia autorizada pelo governo americano em meio a processos judiciais. Sem pré-candidatura definida, ele mantém influência nos bastidores a pedido de Jair Bolsonaro.
O cenário já acendeu alerta na cúpula do partido. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, teria feito um chamado direto aos envolvidos diante da escalada das tensões. Segundo fontes, o recado foi claro: sem demonstrar capacidade de organizar a própria estrutura interna, o grupo terá dificuldade em convencer o eleitorado de que pode governar o país. A movimentação ocorre principalmente a pedido de Jair Bolsonaro, reforçando a influência do ex-presidente nas decisões estratégicas.
A preocupação é ampliada pela avaliação pública do próprio dirigente, que já admitiu que a próxima eleição tende a ser apertada. Nesse contexto, a falta de unidade interna se torna um fator de risco.
Entre aliados, cresce a percepção de que o que está em jogo não é apenas uma candidatura, mas o controle político do grupo. Nesse cenário, o silêncio de Michelle Bolsonaro deixa de ser ausência e passa a ser uma das peças mais eloquentes da disputa.
Procurada pela reportagem, Michelle Bolsonaro não quis se manifestar.
Por: David Gonçalves | Revisão: Laós Queiroz
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