O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia vai além das cifras bilionárias e dos bastidores diplomáticos. Na prática, ele tem potencial para mudar o que chega à mesa do brasileiro, impactando preços, ampliando oferta e aproximando o consumo nacional de produtos europeus que antes eram considerados de luxo ou restritos a datas comemorativas.
Com a assinatura em Bruxelas, o acordo para que itens vistos como fora do cotidiano, vinhos, queijos, chocolates, azeites e até o bacalhau, tradicional nas festas católicas e presente na Páscoa, passem a circular com maior previsibilidade e acessibilidade, sem efeito imediato de preço, mas com impacto gradual ao longo dos próximos anos.
Portugal: azeite em maior previsibilidade
Os azeites europeus, especialmente portugueses, já ocupam posição de destaque nas prateleiras brasileiras. Com o acordo, o setor passa a operar em um ambiente mais previsível, sem risco de novas barreiras tarifárias no médio prazo. Isso fortalece a presença desses produtos no Brasil e cria espaço para mais competição, sem prometer queda automática de preços.
Bacalhau: tradição que se mantém acessível
O bacalhau, símbolo das festas católicas e da Páscoa, produzido na Europa, também sente os efeitos do acordo. A expectativa é de maior regularidade na oferta ao longo do ano e condições mais estáveis para sua importação, mantendo o produto presente no consumo tradicional sem que haja impacto direto imediato nos preços.
Itália: o vinho que cabe no cotidiano
Na Itália, o vinho é parte da rotina. Vinhos de mesa de boa qualidade podem ser encontrados por cerca de 5 euros (pouco mais de 30 reais). No Brasil, a tarifa de 27% transforma esse mesmo produto em garrafas que chegam a 100 reais. Com a eliminação gradual do imposto, prevista entre oito e doze anos, o consumo tende a se popularizar e o hábito italiano de uma taça diária passa a se tornar mais viável para os brasileiros.
Bélgica: do premium ao carrinho
Chocolates belgas, como Côte d’Or e Godiva, que na Europa custam cerca de 2 a 4 euros a barra, no Brasil ainda são artigos de importados com preços altos. Com a redução gradual da tarifa de 20%, esses produtos passam a competir diretamente com marcas nacionais, tornando-se mais acessíveis e próximos do consumidor cotidiano.
França e Holanda: a tábua de queijos possíve
Queijos tradicionais, como Brie e Camembert da França e Gouda da Holanda, enfrentam hoje tarifas de até 28% no Brasil. O acordo prevê uma cota inicial de 30 mil toneladas com imposto zero, criando condições para que esses produtos de alta qualidade se aproximem do preço de itens nacionais e se tornem presença mais constante na rotina do consumidor.
Escócia e Irlanda: o brinde menos pesado
O whisky escocês, que hoje enfrenta tarifas de até 35%, também entra no cronograma de redução gradual de impostos. Garrafas que custam entre 150 e 200 reais devem ficar mais acessíveis, permitindo que mais consumidores experimentem o produto original no mercado brasileiro.
O que muda, na prática?
O acordo foi construído ao longo de mais de 25 anos de negociações, atravessando diferentes governos, crises econômicas e disputas comerciais. Os efeitos não serão imediatos, mas os números ajudam a dimensionar seu alcance:
Vinhos: redução gradual da tarifa de 27% → zero em 8 a 12 anos
Chocolates: tarifa de 20% → zero em 10 a 15 anos
Queijos: até 28% → zero na cota inicial de 30 mil toneladas
Whisky: até 35% → redução progressiva
Azeites: imposto de importação já zerado em março de 2025
A redução das tarifas não significa queda automática de preços, já que câmbio, logística, impostos internos e margens comerciais influenciam o valor final ao consumidor. Ainda assim, o acordo cria condições para que produtos antes de luxo passem a integrar o consumo cotidiano, com mais previsibilidade e competitividade.
Além disso, o fechamento do acordo atende a uma necessidade estratégica da Europa: diante do protecionismo praticado por países como os Estados Unidos, abrir o mercado para commodities do Mercosul garante fornecimento e reduz dependência de grandes potências. Ou seja, é uma negociação que beneficia tanto o consumidor brasileiro quanto a economia europeia, reforçando a importância do comércio internacional e a cooperação entre blocos econômicos.
Por David Gonçalves – correspondente MD na Itália | Revisão: Daniela Gentil
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