A queda do tabagismo no Brasil é apontada como uma das principais conquistas da saúde pública nas últimas décadas. Desde o fim dos anos 1980, o país registrou redução consistente no número de fumantes, resultado de políticas de controle, campanhas de conscientização e restrições ao consumo. Nesse período, a proporção de fumantes caiu de cerca de 35% para menos de 10% da população adulta.
Esse cenário, no entanto, começou a mudar recentemente. Após anos de queda contínua, o Brasil registrou aumento no número de fumantes pela primeira vez desde 2007. Dados do Ministério da Saúde indicam que a proporção de adultos fumantes nas capitais subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, alta de 2,3 pontos percentuais, o que representa cerca de 25% de crescimento em um ano.
A alta interrompe uma trajetória histórica construída ao longo de décadas, marcada por medidas como a proibição da publicidade de cigarros, a criação de ambientes livres de fumo e o aumento da tributação sobre produtos derivados do tabaco. Essas ações atuaram para reduzir o consumo e consolidar o Brasil como referência internacional no controle do tabagismo.
Especialistas apontam que a reversão recente está ligada a mudanças no comportamento de consumo, principalmente entre os mais jovens. O avanço de dispositivos eletrônicos para fumar, como os cigarros eletrônicos, é citado como um dos fatores que contribuem para a retomada do hábito, ao tornar o uso de nicotina mais atrativo e diversificado.

Além do aumento recente, o estudo “Tendência temporal do tabagismo no Brasil nas últimas décadas”, publicado em 2026 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta que a queda do tabagismo já vinha perdendo força antes mesmo da alta observada mais recentemente. A pesquisa analisou dados de levantamentos nacionais, como o Vigitel, que acompanha hábitos de saúde da população. Os resultados indicam que a queda do tabagismo foi mais acentuada até meados da década de 2010, mas passou a perder ritmo nos anos seguintes.
Na prática, isso significa que, após um período de forte redução, o número de fumantes começou a cair mais lentamente, até atingir um cenário de relativa estabilidade, o que ajuda a explicar por que o aumento recente ocorreu após anos de desaceleração.
Apesar do alerta, o Brasil ainda mantém níveis de tabagismo significativamente menores do que no passado. O desafio agora, é retomar políticas mais eficazes de controle, com foco na prevenção entre jovens e na regulação de novos produtos à base de nicotina, para evitar que a tendência de alta se consolide nos próximos anos.
Por Lais Pereira da Silva | Revisão: Daniela Gentil
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