O ano de 2026 começou com os olhos do mundo voltados para as cicatrizes históricas do Brasil. Com a consagração de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, na temporada de premiações acumulando indicações históricas ao Oscar, incluindo Melhor Filme e a inédita nomeação de Wagner Moura como Melhor Ator, o período da ditadura militar voltou a ocupar o centro do debate cultural. Mas, enquanto o cinema projeta essas sombras em telas gigantescas, a literatura convida a um mergulho mais silencioso e introspectivo na mesma ferida.
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É nesse cenário de ebulição cultural que a obra Cinzas de Cogumelos Azuis (Editora Viseu 2025), de Sebastian Levati, ganha uma nova camada de relevância. Ambientado entre 1972 e 1992, o romance não se limita a narrar a repressão; ele investiga o que restou dela. Ao acompanhar a trajetória de Orlando, um jovem que troca o interior pela militância clandestina em São Paulo, e seu amor por Clarice, Levati constrói uma narrativa que desafia a brutalidade através da lírica.
Em entrevista para o MD News, o autor explica que a escolha por uma linguagem poética não foi uma tentativa de suavizar o horror, mas de sobreviver a ele.
“O maior desafio foi entender a poesia não como ornamento, mas como ética”, revela Levati. “A linguagem poética surge como um gesto de escuta, quase de contenção… Não me interessava suavizar a violência, mas encontrar uma forma de nomeá-la sem reproduzir sua brutalidade.”
A democracia e suas sombras
Uma das decisões narrativas mais potentes do livro é estender a trama para além do fim oficial do regime militar, alcançando o início dos anos 90 e culminando no massacre do Carandiru. Para o autor, essa escolha foi deliberada para expor que a virada da página política não significou o fim da violência de Estado.
“O fim formal da ditadura não significou o fim de seus efeitos”, pontua o escritor. Segundo ele, a obra tenta demonstrar como o autoritarismo continuou operando sob novas máscaras na Nova República. “A democracia brasileira nasce atravessada por silêncios, pactos e impunidades.”
Essa tensão se reflete também no arco romântico da trama. A relação entre o militante Orlando e Clarice, moça de família tradicional, serve como um microcosmo das fraturas sociais do país. Levati rejeita a visão simplista do “amor que tudo vence”. Para ele, o relacionamento dos protagonistas revela barreiras estruturais que “não se desfazem apenas no plano íntimo”, provando que o sistema político impõe limites concretos que atravessam até os afetos.
Um alerta para o presente
Se em 2026 o cinema celebra a memória como forma de arte, Cinzas de Cogumelos Azuis a reivindica como ferramenta de vigilância. Ao ser questionado sobre o que a juventude atual, imersa em um cenário polarizado pode aprender com a geração de Orlando, Levati é categórico: “Não existe neutralidade em momentos de ruptura histórica”.
O autor alerta que a omissão também produz consequências profundas e que as escolhas de hoje, inclusive a de se alienar, refletem no futuro coletivo.
Ao final da leitura, e da conversa, fica claro que a obra transformou também quem a escreveu. Levati confessa ter saído do processo “menos ingênuo” em relação às narrativas oficiais. “Escrever Cinzas de Cogumelos Azuis me fez enxergar o Brasil como um país que convive com camadas de passado mal elaboradas, que insistem em retornar”, conclui.
Seja nas telas do Oscar ou nas páginas de um romance, a mensagem de 2026 parece uníssona: a memória, mesmo dolorosa, é a única forma de disputar o presente.
FICHA TÉCNICA
Título: Cinzas de Cogumelos Azuis
Autor: Sebastian Levati
Editora: Viseu
ISBN: 978-6528027606
Páginas: 304
Preço: R$ 42,95
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Por: Laís Queiroz | Revisão: Pietra Gomes
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