Em um país onde ansiedade, depressão e esgotamento emocional aparecem cada vez mais cedo e com mais intensidade. Por isso, o Janeiro Branco surge como um chamado à reflexão e ao cuidado com a saúde mental. A campanha, realizada no primeiro mês do ano, aproveita o simbolismo dos recomeços para estimular a sociedade a falar sobre emoções, limites, sofrimento psíquico e busca por ajuda profissional.
Para aprofundar o debate, o MD News ouviu a psicóloga Anahy D’Amico, que destaca a relevância da iniciativa e alerta para os impactos do adoecimento emocional na vida cotidiana. Logo de início, a especialista avalia a importância do Janeiro Branco como uma ferramenta de conscientização coletiva.
“O Janeiro Branco é extremamente importante porque convida a sociedade a fazer algo que raramente fazemos: olhar para dentro. Assim como campanhas voltadas à saúde física ajudaram a normalizar exames preventivos, o Janeiro Branco ajuda a legitimar o cuidado com a saúde emocional.”
Segundo ela, a campanha rompe silêncios históricos e reforça que saúde mental não deve ser vista como privilégio ou fraqueza, “Ele rompe o silêncio, amplia o debate e reforça a ideia de que saúde mental não é luxo, nem fraqueza, mas uma necessidade básica.”
Pressões do cotidiano e sinais de alerta
Anahy chama atenção para os fatores sociais que contribuem para o aumento dos transtornos mentais, “Vivemos em uma sociedade que exige desempenho constante, produtividade ininterrupta e felicidade obrigatória. Há pouco espaço para falhar, sentir, parar ou pedir ajuda.”, alerta.
Entre os agravantes, ela cita o excesso de estímulos, o uso intenso das redes sociais, a comparação constante, a insegurança financeira e a fragilidade dos vínculos afetivos. Esse contexto, segundo a psicóloga, é reforçado por uma cultura que invalida o sofrimento: “Existe uma cultura do ‘seja forte’ e do ‘dê conta’, que invalida o sofrimento emocional.”
Para identificar quando é hora de buscar ajuda, Anahy orienta observar mudanças persistentes no dia a dia. “Podemos identificar que há algo a ser cuidado quando percebemos mudanças persistentes no humor, no sono, no apetite, na motivação, na concentração, no interesse por atividades antes prazerosas ou quando o sofrimento começa a interferir no trabalho, nos relacionamentos e na vida cotidiana.”
Genética, ambiente e adoecimento emocional
Ao falar sobre depressão, a psicóloga reforça que não há uma única causa, “A depressão não tem uma causa única. Ela é multifatorial. Existe, sim, uma predisposição genética em alguns casos, mas isso não significa destino.”
Ela também explica que fatores ambientais têm peso decisivo no desenvolvimento do transtorno: “Podemos pensar na genética como uma vulnerabilidade, e no ambiente como o gatilho.”
O que chega aos consultórios e o preconceito existente
No dia a dia profissional, Anahy relata que os consultórios refletem o esgotamento emocional da sociedade, “Nos consultórios, é muito comum encontrar quadros de ansiedade, depressão, burnout, dependência emocional, baixa autoestima, dificuldades relacionais e traumas ligados à infância ou a relações abusivas.”
Apesar do aumento da procura, a resistência ao atendimento psicológico ainda existe, “Muitas pessoas acreditam que terapia é ‘para quem não aguenta’, ‘para quem enlouqueceu’ ou apenas para momentos extremos”. Esse preconceito, segundo ela, atrasa diagnósticos e aprofunda o sofrimento.
Estigma, silêncio e consequências
Para a psicóloga, o tabu em torno da saúde mental tem raízes profundas: “O estigma vem, em grande parte, do medo e da desinformação. Durante muito tempo, sofrimento psíquico foi associado à fraqueza moral, falta de fé ou incapacidade.”
Ela continua dizendo que o impacto desse silêncio pode ser grave. “Esse tabu faz com que as pessoas escondam seus sintomas, minimizem seu sofrimento e adiem a busca por ajuda.”
Como ajudar quem está sofrendo
Ao abordar colegas, amigos ou familiares, Anahy destaca a importância da escuta: “O primeiro passo é escutar sem julgar. Não minimizar a dor, não comparar sofrimentos e não oferecer soluções prontas.” Além disso, a profissional alerta que frases comuns podem afastar quem precisa de apoio e reforça: “Ajudar não é salvar o outro, mas caminhar ao lado e mostrar que ele não está sozinho.”
Autocuidado e reflexão final
Para encerrar, a psicóloga propõe uma visão mais ampla sobre autocuidado. “Autocuidado não é apenas estética, lazer ou momentos pontuais de descanso. Autocuidado é aprender a dizer não, respeitar limites, reconhecer emoções, cuidar do corpo, buscar apoio, rever relações e procurar ajuda quando necessário”.
Além disso, ela deixa uma reflexão que resume o espírito do Janeiro Branco, “Saúde mental não é ausência de sofrimento, é a capacidade de lidar com ele de forma saudável. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é sinal de responsabilidade consigo mesmo.”
Por Arthur Moreira | Revisão: Pietra Gomes
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