O endividamento das famílias brasileiras alcançou níveis recordes e acendeu um alerta para 2026. Segundo dados recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e do Banco Central, 79% das famílias estão endividadas e cerca de 30% têm contas em atraso, o maior patamar em mais de uma década. O cenário é agravado por juros elevados, crédito mais caro e renda comprometida, fatores que reduzem a capacidade de consumo e pressionam o orçamento doméstico.
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Apesar disso, o mercado de trabalho apresenta um dado aparentemente positivo: o desemprego segue em patamares historicamente baixos. Para Roberto Aguiari, especialista em Operações de Alta Performance e um dos autores do livro Finanças para operações enxutas, esse contraste exige cautela.
“A questão do endividamento e dos juros é preocupante, mas o desemprego praticamente não existe e o que se vê no mercado é falta de mão de obra por excesso de oferta de emprego. Esse é um indicador positivo. Ainda assim, é preciso cuidado com o consumo exagerado e com o hábito de gastar mais do que se ganha”, alerta.
O desperdício invisível do consumo exagerado
O alerta feito para as empresas também vale para dentro de casa. Segundo Aguiari, o maior desperdício, tanto no ambiente doméstico quanto na indústria, é o excesso de estoque.
“Comprar mais do que se precisa, ou pior, o que não é preciso, é um dos grandes problemas da nossa era de consumismo exacerbado. São objetos inúteis que entulham as casas e reduzem o saldo bancário”, afirma.
No livro Finanças para operações enxutas, os autores mostram que esse comportamento distorce a percepção financeira, criando uma falsa sensação de controle enquanto o caixa se deteriora. A lógica vale tanto para famílias quanto para empresas que produzem ou compram além da demanda real.
Primeiro parar de sangrar, depois renegociar
Em um ambiente de crédito restrito, renegociar dívidas sem mudar o comportamento financeiro pode ser ineficaz. Para Aguiari, a prioridade deve ser interromper o ciclo de prejuízo mensal.
“No nosso entendimento, parar de sangrar é prioridade. Com um futuro no azul, podemos renegociar o passado. De nada adianta renegociar e continuar girando no vermelho”, explica.
Esse princípio está alinhado ao pensamento central do Lean Accounting, método que propõe decisões financeiras baseadas em fluxo de valor, geração de caixa e demanda real, e não apenas em indicadores contábeis tradicionais.
Produzir mais não resolve quando não se vende mais
No ambiente empresarial, um dos erros mais comuns, segundo os especialistas, é produzir mais para diluir custos fixos, prática comum na contabilidade tradicional.
“O custo fixo é indissolúvel. Quando se produz além da venda, o que se faz é estocar parte do custo fixo, que não aparece na apuração e distorce o resultado. O ganho é um lucro falso e um caixa estourado”, afirma Aguiari.
Ele reforça uma frase recorrente entre os autores do livro:
“Se não estamos conseguindo vender, produzir mais não é a solução.”
Caixa é mais importante do que lucro no papel
Entre os indicadores defendidos pelo Lean Accounting, um se destaca como prioridade absoluta: a Geração de Caixa Operacional (G.C.O.).
“O G.C.O. mostra quanto a operação realmente gerou de caixa no mês. Ele complementa o Lucro Operacional Lean e considera estoques, contas a receber e a pagar. Podemos ter lucro no papel, mas se compramos demais ou concedemos prazos longos, esse lucro não chega ao caixa”, explica.
Outro indicador recomendado é a Margem de Contribuição sobre o Custo Fixo, que substitui métricas tradicionais de volume e custo unitário e mostra quanto a operação efetivamente contribui para sustentar a estrutura instalada.
Um novo modelo para decisões financeiras mais conscientes
Esses conceitos são aprofundados no livro Finanças para operações enxutas, escrito por Ricardo Borgatti, Roberto Aguiari e José E. Balian. A obra nasceu da constatação de uma contradição recorrente no mundo corporativo: processos mais eficientes, estoques menores e melhor atendimento ao cliente, mas relatórios financeiros piores, mesmo com melhora do caixa.
O problema, segundo os autores, está no modelo tradicional de apuração de custos e resultados, que induz decisões equivocadas e compromete a competitividade no longo prazo.
O Lean Accounting surge como alternativa prática e estratégica, focada na criação real de valor para o cliente e para o negócio, com indicadores mais simples, ágeis e alinhados à demanda real.
Embora voltado às empresas, o livro oferece aprendizados que também dialogam com a realidade das famílias brasileiras em 2026: gastar com mais consciência, evitar estoques desnecessários, priorizar geração de caixa e tomar decisões financeiras baseadas na realidade, não em ilusões contábeis ou de consumo.
Por: Laís Queiroz | Revisão: Daniela Gentil
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