Belém, capital do Pará e sede da COP30, amanheceu neste sábado (15) com ruas tomadas por vozes, cores e bandeiras na Marcha Mundial pelo Clima, realizada um dia após o encerramento da primeira semana de discussões da conferência. O ato reuniu milhares de pessoas entre lideranças indígenas, amazônicas, comunitárias, organizações nacionais e internacionais para defender ações urgentes de adaptação climática e medidas concretas contra o aquecimento global.
A concentração ocorreu no tradicional Mercado de São Brás, onde representantes de diversos povos iniciaram uma caminhada que seguiu por pontos estratégicos da cidade até a Aldeia Amazônica, espaço conhecido por sediar o carnaval de Belém e que, nesta manhã, transformou-se em palco político e cultural da resistência climática.
Territórios no centro da luta
As lideranças presentes reforçaram que não há política climática efetiva sem considerar quem vive na floresta e dela depende para existir. Entre as principais reivindicações estavam:
- demarcação de territórios indígenas e tradicionais (como quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, etc.).
- financiamento climático adequado para uma transição justa,
- medidas urgentes de adaptação para populações mais vulneráveis,
- compromisso internacional com o fim progressivo dos combustíveis fósseis.
Segundo a organização, a marcha buscou reafirmar o papel fundamental que as populações da Amazônia exercem na formulação e implementação de políticas de enfrentamento à crise climática. “A sobrevivência do planeta passa pelos territórios. É onde se combate de fato o desmatamento e onde a vida resiste”, afirmaram representantes durante o ato.
Cultura paraense como linguagem de resistência
A programação incluiu manifestações artísticas que dialogam com a identidade popular da região. Oficinas de estandartes, cartazes, desfiles folclóricos, bonecos infláveis e apresentações culturais marcaram o percurso. Entre as figuras que chamaram atenção estavam personagens tradicionais da cultura paraense, simbolizando a união entre luta política e celebração da ancestralidade.
Para muitos participantes, utilizar a arte como ferramenta de mobilização torna a mensagem mais potente e acessível, aproximando a população do debate climático.
Um funeral simbólico pelos combustíveis fósseis
Um dos momentos mais marcantes da marcha foi o “funeral dos combustíveis fósseis”, ato que levou três caixões pelas ruas representando a morte simbólica do carvão, do gás e do petróleo. Pessoas fantasiadas de onça abriam o cortejo, chamando a atenção para a ameaça que o avanço da exploração energética representa para a fauna amazônica.
“Essa é a mensagem que a COP precisa ouvir. Os cientistas já disseram que não tem como resolver a questão climática se não acabarmos com os combustíveis fósseis. É física, não dá pra negociar”, afirmou uma das lideranças presentes, ecoando o consenso da comunidade científica sobre o impacto direto desses combustíveis no aumento da temperatura da Terra.
A ação traduz um dos debates mais intensos da COP30: traçar um caminho concreto e irrevogável para o abandono das fontes de energia que emitem carbono, responsáveis por acelerar a crise climática que atinge o planeta.
Mais de 60 países já defendem compromisso mais rígido
Segundo os representantes que discursaram durante a marcha, mais de 60 países já se posicionaram dentro da COP defendendo metas mais rígidas para o fim dos combustíveis fósseis. A pressão vem aumentando, sobretudo porque relatórios recentes demonstram que o planeta está próximo de ultrapassar limites irreversíveis de aquecimento.
Nesse cenário, organizações socioambientais presentes em Belém alertam que o Brasil, país que abriga a maior floresta tropical do mundo, tem papel estratégico e precisa assumir liderança clara na transição energética, incluindo a ampliação de energias limpas, a proteção da floresta e o respeito aos direitos territoriais.
Carta com reivindicações será apresentada ao fim da Cúpula dos Povos
Encerrando a primeira semana de atividades, a Cúpula dos Povos, que funciona como um espaço paralelo e democrático da sociedade civil, deve lançar uma carta ao final da marcha. O documento reúne propostas e exigências elaboradas ao longo dos últimos dias e deve ser apresentado como contribuição direta para as negociações oficiais da COP30.
Entre os temas centrais que devem aparecer na carta estão:
- adaptação climática urgente para regiões de risco
- justiça climática para populações historicamente impactadas
- financiamento internacional direcionado às comunidades que protegem os biomas;
- compromissos de eliminação gradual de combustíveis fósseis
- valorização do conhecimento ancestral indígena nas políticas ambientais.
A expectativa é que o documento funcione como um recado forte dos movimentos sociais para os países negociadores, reforçando que não há mais tempo para medidas superficiais.
Belém como palco de um debate global
Com a proximidade da segunda semana da COP30, Belém se consolida como centro das atenções mundiais. A cidade, que vive desafios intensos relacionados às mudanças climáticas como alagamentos, calor extremo e vulnerabilidade de comunidades ribeirinhas, se torna espaço simbólico e real da urgência climática.
A Marcha Mundial pelo Clima reforçou essa realidade: enquanto líderes debatem políticas nas salas da conferência, nas ruas a sociedade civil lembra que a crise já afeta milhões e exige respostas rápidas, eficazes e justas.
Um chamado à ação
A presença massiva de indígenas, quilombolas, moradores de periferias, ambientalistas e ativistas de diversas nacionalidades demonstra a força coletiva da luta socioambiental. O recado deixado em Belém é claro: não há como adiar as decisões que vão determinar o futuro do planeta.
Mais que uma manifestação, a marcha simboliza um chamado global para que governos, empresas e instituições assumam compromisso com uma transição energética justa, proteção da Amazônia e defesa dos povos que há séculos mantêm a floresta viva.
Por Alemax Melo I Revisão: Daniela Gentil
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