O noticiário desta semana trouxe de Itumbiara, no sul de Goiás, o tipo de manchete que interrompe o fôlego: o secretário municipal, Thales Naves Alves Machado, atirou contra os próprios filhos, matando o pequeno Miguel, de 12 anos, e deixando o irmão, Benício, de 8 anos, em estado gravíssimo, antes de tirar a própria vida. O luto oficial e as notas de pesar tentam dar ordem ao caos, mas há um abismo que os protocolos oficiais jamais alcançarão.
Diante de crimes assim, ressoa em mim o título de um livro de poesias que funciona como um ultimato: “Quando você for sua, talvez não queira ser de mais ninguém”. É uma frase que dói e liberta. Dói porque somos confrontadas diariamente com uma brutalidade que insiste em atenuar a responsabilidade masculina, como se homens portassem um passaporte diplomático para a violência e como se o corpo feminino e a vida dos filhos fossem territórios conquistados.
A tragédia em Itumbiara é o desdobramento final de uma cultura de posse, onde a máxima “ninguém é dono de ninguém” ainda é tratada como teoria abstrata, e não como verdade absoluta. Sinto um medo legítimo de “trocar de lado”: deixar de ser quem lê e relata o fato para me tornar a notícia. Tenho pavor de que o meu rosto, e o de tantas outras, seja exposto sob a legenda de uma tragédia, fazendo com que o mundo nos conheça pelo crime cometido contra nós, e não por quem somos.

Precisamos de coragem para romper ciclos antes que eles nos interrompam com balas ou mãos pesadas. Cansei de ouvir, diante de sinais claros de abuso, que “ele é uma boa pessoa” ou “um ótimo pai”. O caso de Itumbiara nos obriga a uma honestidade cortante: se um homem trai a promessa de honrar e respeitar a mulher com quem divide a vida, ele falhou em sua essência.
Não existe “homem de bem” onde habita o desrespeito. Se ele falha como parceiro, ele falha como homem e, por extensão, falha como pai ao ensinar aos filhos que o amor pode ser abusivo.
Quero ser lembrada pelo meu aroma favorito, pelo prato que aquece minha alma e pelo livro que mudou minha trajetória. Pelos encontros e cafés generosos com amigas queridas, e não pela marca de uma mão que nunca entendeu o significado de respeito. O luto em Itumbiara é de todas nós, mas a decisão de sobrevivência é individual e inegociável. O ciclo não começou em mim, mas eu decreto que ele termina aqui. Pela minha vida, pelas que vieram antes e pelas que virão: eu escolho ser minha.
*As informações acima não refletem necessariamente a opinião do portal MD News.
Por: Laís Queiroz | Revisão: Daniela Gentil
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