Criadas na China durante a pandemia, as chamadas novelas verticais, também conhecidas como microdramas, short dramas ou verticais, vêm se consolidando como um novo formato de consumo audiovisual. Pensadas para o celular, essas produções apostam em capítulos muito curtos, narrativas aceleradas e ganchos constantes para prender a atenção do público.
De acordo com a consultoria Media Partners Asia, esse mercado movimentou US$ 1,4 bilhão em 2024, sem considerar o território chinês. A projeção é que, até 2030, o faturamento global chegue a US$ 9,5 bilhões. O crescimento chama atenção de grandes empresas do entretenimento, que passaram a investir em plataformas e conteúdos adaptados ao formato vertical.
Capítulos rápidos e histórias condensadas
O principal diferencial das novelas verticais está na duração. Os episódios raramente ultrapassam quatro minutos e quase sempre terminam com um gancho decisivo. A história completa também é mais curta: geralmente não passa de 70 capítulos.
A lógica de produção acompanha essa condensação narrativa. Enquanto um capítulo de uma novela tradicional pode ter, em média, 40 páginas de roteiro, uma novelinha inteira pode ter pouco mais de 50 páginas no total, reunindo toda a trama.
Onde esse conteúdo é exibido?
No Brasil, esse tipo de produção começou a ganhar espaço tanto em redes sociais quanto em plataformas digitais especializadas. Aplicativos como ReelShort, Dramabox e GoodShort de origem chinesa oferecem títulos dublados em português, com parte do conteúdo liberada gratuitamente e o restante condicionado à compra de créditos.
A TV Globo também passou a experimentar o formato, lançando sua primeira novela vertical, Tudo por uma segunda chance, distribuída em redes sociais como TikTok, Instagram, Facebook, X, YouTube e também no Globoplay. A trama gira em torno de um triângulo amoroso marcado por conflitos extremos, como envenenamento, coma hospitalar e prisão injusta, elementos típicos da narrativa acelerada dos microdramas.
Já o Globoplay anunciou Cinderela e o Segredo do Pobre Milionário, estrelada por Gustavo Mioto, além de outros projetos previstos para os próximos anos, incluindo produções baseadas em personagens marcantes de novelas da TV aberta. Outras emissoras também testam o formato. O SBT, por exemplo, utiliza a linguagem vertical em seu canal jovem digital TVZYN, com a websérie Refollow.
É pago ou gratuito?
O modelo de acesso varia conforme a plataforma. Por exemplo, as produções exibidas nas redes sociais da TV Globo são gratuitas. No Globoplay, apenas os sete primeiros capítulos ficam abertos; para assistir à obra completa, é necessário assinar um pacote específico. Também é gratuito na TVZYN, no +SBT e no YouTube do canal jovem do SBT.
Nos aplicativos especializados em microdramas, a lógica é semelhante: os episódios iniciais são liberados, mas o desfecho exige a compra de créditos, com valores a partir de alguns reais.
Como é produzido?
Apesar de serem pensadas para o celular, as novelas verticais não são gravadas de forma amadora. No Brasil, utilizam-se câmeras profissionais, embora mais leves, e equipes técnicas reduzidas em comparação às produções da TV tradicional.
O enquadramento vertical exige atenção especial a elementos como teto e chão, que ficam mais evidentes nesse formato. Os cenários são compactos, o elenco costuma ser menor e toda a produção é pensada para agilidade. Segundo profissionais do setor, o volume de equipamentos e pessoas envolvidas pode caber em uma única van.
Com narrativas intensas, episódios rápidos e consumo majoritariamente pelo celular, as novelas verticais refletem mudanças nos hábitos do público e na forma de produzir ficção audiovisual. Ainda em fase de testes e adaptação no Brasil, o formato já indica que veio para ficar, acompanhando a lógica de consumo rápido e multiplataforma que marca o entretenimento digital contemporâneo.
Por João Vitor Mendes | Revisão: Pietra Gomes
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