Três universidades brasileiras, em parceria com a Universidade de Glasgow (Reino Unido), lançaram um projeto inovador para investigar os impactos das mudanças climáticas em favelas e outras comunidades urbanas vulneráveis, envolvendo os próprios moradores na produção do conhecimento.
O estudo participativo, denominado Pacha, sigla em inglês para Análise Participativa para Adaptação Climática e Saúde em Comunidades Urbanas Desfavorecidas no Brasil, vai se estender até 2027 e focar inicialmente em três cidades: Natal (RN), Curitiba (PR) e Niterói (RJ).
A iniciativa ganhou ainda mais relevância após uma onda de calor intensa que atingiu várias regiões do Brasil, intensificando o debate sobre justiça climática e evidenciando que o calor não é sentido da mesma forma por todos os grupos sociais. Enquanto moradores de áreas com infraestrutura adequada conseguem reduzir os efeitos das temperaturas extremas, comunidades periféricas e favelas, com menos acesso a áreas verdes e recursos para adaptação, enfrentam exposições mais severas e riscos à saúde.
SOBRE A PESQUISA
Desde 2024, universidades do Brasil e do Reino Unido começaram a estruturar uma pesquisa colaborativa para investigar os impactos das mudanças climáticas em favelas de Natal, Curitiba e Niterói. O esforço ganhou impulso com o anúncio oficial do projeto Pacha no final de 2025, durante a COP30.
Coordenado pelo cientista brasileiro João Porto de Albuquerque, diretor do Urban Big Data Centre da Universidade de Glasgow, o projeto recebeu financiamento e pretende propor maneiras de reduzir os efeitos da crise climática nessas comunidades, tradicionalmente excluídas dos principais estudos e diagnósticos oficiais.
Ao longo da pesquisa, serão lançados editais para concessão de bolsas, incluindo vagas destinadas a moradores das favelas que queiram atuar como investigadores comunitários. Esse formato tem como objetivo fortalecer a capacidade local de monitorar, analisar e responder aos desafios climáticos mais urgentes, como ondas de calor, enchentes e outras consequências ambientais.
Entre as instituições brasileiras parceiras estão a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com apoio adicional de centros como o CIDACS/Fiocruz para análises que considerem desigualdades sociais, de raça, renda e idade.
A proposta é construir uma base de dados comunitária capaz de refletir a realidade das favelas que frequentemente ficam fora dos planos e políticas públicas de adaptação climática, e gerar indicadores que possam influenciar decisões estratégicas nos níveis local e nacional.
Especialistas afirmam que envolver diretamente a população local não apenas democratiza o processo de pesquisa, como também cria ferramentas e conhecimentos que permanecem nas próprias comunidades após o término do projeto, promovendo maior equidade na resposta às mudanças climáticas.
O resultado final da pesquisa está previsto para o fim de 2027, com disseminação ampla das descobertas e recomendações para políticas públicas mais sensíveis às desigualdades socioambientais enfrentadas por quem vive nos territórios periféricos brasileiros.
Por: Lais Pereira da Silva | Revisão: Daniela Gentil
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