O atendimento de vítimas de disparos de arma de fogo no Brasil representa um peso significativo para o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo dados da 3ª edição do estudo Custos da Violência Armada: gastos da saúde pública com atendimento de vítimas de armas de fogo, elaborado pelo Instituto Sou da Paz com base em registros do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e atualizado até 2024, o país gastou cerca de R$ 556 milhões em internações hospitalares destinadas ao tratamento de lesões provocadas por armas de fogo na última década.
Esses valores revelam não apenas a dimensão da violência armada, mas também o impacto financeiro que ela exerce sobre o orçamento público destinado à saúde.
Em 2024, o SUS contabilizou 15,8 mil internações por ferimentos com arma de fogo, o que gerou um gasto total de R$42,3 milhões.
O custo médio de uma internação desse tipo foi de R$ 2.680, um valor equivalente a 159% do gasto federal médio per capita em saúde no mesmo ano, este último estimado em R$ 1.033, evidenciando que o tratamento de vítimas de arma de fogo custa mais do que o dobro da média aplicada por habitante no sistema de saúde.
Custos ao longo da década
Os dados também indicam uma trajetória de queda tanto nos custos totais quanto no número de internações ao longo da década. Entre 2015 e 2017, os gastos com internações por arma de fogo chegaram a registrar mais de R$70 milhões por ano, tendo caído gradualmente nos anos seguintes. Ainda assim, a média anual ao longo do período foi de aproximadamente R$56,6 milhões, evidenciando uma demanda persistente por atendimento hospitalar em decorrência da violência armada.
Além do impacto econômico direto, especialistas ressaltam que esses recursos poderiam ser usados em outras frentes prioritárias da saúde pública.
O valor gasto em 2024 com internações por arma de fogo seria suficiente, por exemplo, para realizar mais de 10 milhões de exames de hemograma completo, cerca de 4,5 milhões de radiografias de tórax, aproximadamente 74 mil sessões de quimioterapia para câncer de mama ou cerca de 1,7 milhão de ultrassonografias obstétricas. procedimentos que reforçam a importância de investir em prevenção e cuidado contínuo da saúde.
O estudo também mostra que esse tipo de internação é mais caro do que atendimentos causados por outras formas de agressão, como objetos cortantes ou agressões físicas, sendo cerca de 80% mais oneroso. Além disso, não são incluídos no cálculo custos relacionados a atendimentos ambulatoriais, reabilitação pós-alta, fisioterapia, acompanhamento psicológico ou custos com a rede privada e despesas de estados e municípios, o que indica que o impacto real pode ser ainda maior.
Jovens negros concentram vítimas da violência armada
O perfil epidemiológico das vítimas segue o padrão já observado em outras análises sobre violência armada no Brasil: a maioria é composta por homens jovens, negros e moradores de regiões mais vulneráveis, com diferentes impactos regionais, como maior número de internações no Nordeste e Sudeste.
Esses números reforçam que a violência armada não é apenas uma questão de segurança pública, mas também de saúde pública e de políticas de prevenção, uma vez que os custos elevados de atendimento hospitalar poderiam ser significativamente reduzidos com medidas eficazes de controle de armas, políticas sociais e ações integradas entre saúde, segurança e assistência social.
Por: Lais Pereira da Silva | Revisão: Daniela Gentil
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