A Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) deflagrou, nesta segunda-feira (17/11), a Operação Rastreio, uma ofensiva nacional contra um esquema de roubo, furto, desbloqueio e receptação qualificada de celulares que se espalhava por todos os cantos do país. Considerada uma das maiores ações recentes contra esse tipo de crime, a operação visa desmantelar a estrutura responsável por “limpar” digitalmente aparelhos roubados e recolocá-los no mercado como se fossem produtos lícitos.
A operação conta com o apoio das Polícias Civis de 11 estados Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Pará e Rondônia além do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), que articulou a integração das forças estaduais.
Início das investigações
As investigações começaram em maio deste ano, após a prisão de um criminoso conhecido por sua habilidade em desbloquear celulares de forma remota. Ele era uma verdadeira referência no submundo digital: conseguia acessar aparelhos sem contato físico, derrubando sistemas de proteção e permitindo que voltassem a funcionar como novos.
Com sua prisão, os policiais tiveram acesso a mensagens, anotações e registros que revelaram uma extensa rede de clientes espalhados por todos os estados brasileiros. Essas pessoas enviavam aparelhos roubados para desbloqueio e, posteriormente, repassavam os dispositivos “limpos” para receptadores, que realizavam a revenda.
Além disso, o criminoso também oferecia cursos online, nos quais ensinava técnicas de desbloqueio, o que ampliou ainda mais o alcance da rede e permitiu que outros indivíduos passassem a operar o mesmo tipo de serviço.
Alvos em 11 estados
Nesta fase da Operação Rastreio, os alvos são clientes ativos e recorrentes, identificados como responsáveis por fornecer aparelhos roubados para o desbloqueio. Entre eles, estão também suspeitos de reintroduzir os celulares no comércio ilegal após a remoção de bloqueios, utilizando plataformas digitais, lojas clandestinas e outros canais para dar aparência legítima aos produtos.
As autoridades apontam ainda que o desbloqueio dos aparelhos não tinha apenas o objetivo de revendê-los. O acesso aos dados pessoais das vítimas documentos, fotos, conversas e aplicativos financeiros era explorado para realizar abertura de contas bancárias falsas, empréstimos fraudulentos e transferência de valores, ampliando significativamente os prejuízos causados.
O delegado responsável destacou que a ação precisava atingir todos os elos da cadeia criminosa: “Trata-se de uma rede complexa, com divisão de tarefas e atuação nacional. A integração das polícias estaduais foi essencial para chegarmos aos articuladores e aos operadores desse esquema.”
Resultados já alcançados
A Operação Rastreio integra um conjunto de ações contínuas que vêm sendo realizadas ao longo do ano. Até o momento, segundo a PCERJ, já foram realizadas mais de 700 prisões relacionadas ao esquema e 10 mil celulares foram recuperados. Desses, 2.800 aparelhos já puderam ser devolvidos aos seus verdadeiros proprietários.
Os números refletem a capacidade das equipes de rastrear aparelhos mesmo após diversos desbloqueios, alteração de IMEI e mudanças de usuários. Ferramentas próprias de cruzamento de dados têm sido aprimoradas para facilitar a identificação dos donos legítimos.
A engrenagem do crime
Nos últimos anos, o roubo de celulares deixou de ser um crime meramente patrimonial para se tornar a chave de acesso para golpes sofisticados. Com a popularização dos serviços bancários por aplicativos, criminosos encontraram no desbloqueio de aparelhos uma forma de entrar diretamente na vida financeira das vítimas.
Segundo investigadores, o especialista preso funcionava como um núcleo tecnológico do esquema. Ele fornecia orientações para burlar barreiras de segurança, ensinava métodos de engenharia social para recuperar senhas e, em alguns casos, conseguia acessar nuvens digitais para extrair informações pessoais sensíveis.
A partir daí, os celulares eram vendidos para receptadores, que os reintroduziam no mercado. Muitos aparelhos eram anunciados como “seminovos”, acompanhados até de notas fiscais falsificadas.
Força-tarefa nacional
A operação desta segunda-feira foi planejada durante meses e envolveu cruzamento de dados, monitoramento de transações suspeitas, análise de fluxos digitais e escutas autorizadas pela Justiça. O grande volume de mandados 132 no total demonstra a capilaridade do esquema e a confiança entre os criminosos, que operavam em escala nacional.
Os agentes apreenderam aparelhos, computadores, documentos, máquinas utilizadas para desbloqueio e valores oriundos das atividades ilícitas. Todo o material deve ser analisado para identificação de novos envolvidos e aprofundamento da investigação.
Riscos para as vítimas e alerta às famílias
Cada aparelho desbloqueado traz consigo um risco significativo para a vítima. Além das perdas financeiras, há o risco da exposição de fotos pessoais, conversas íntimas, documentos digitalizados e outras informações sensíveis.
A polícia orienta que usuários mantenham medidas de segurança ativadas, incluindo autenticação em duas etapas, bloqueios automáticos e senhas fortes para aplicativos financeiros, medidas que dificultam o avanço do criminoso em caso de furto ou roubo.
O que vem a seguir para a investigação
Com a apreensão de equipamentos e documentos nesta nova fase, a polícia pretende aprofundar a identificação de operadores formados nos cursos ministrados pelo criminoso preso. A expectativa é avançar sobre células regionais que ainda estejam ativas e desvendar rotas de comercialização dos aparelhos.
Autoridades reforçam que novas etapas da Operação Rastreio já estão em planejamento e devem ser executadas conforme análise dos materiais obtidos.
Por Alemax Melo I Revisão: Daniela Gentil
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