A cerimônia do Globo de Ouro 2026 confirmou tendências, trouxe surpresas pontuais e entrou para a história do cinema brasileiro. Para a jornalista e crítica de cinema Isabella Faria, o saldo geral da premiação foi bastante positivo, tanto do ponto de vista artístico quanto simbólico.
“Houve surpresa sim e, no geral, eu gostei muito da premiação. Foi mais longa, por conta do número de categorias, mas achei que eles tentaram fazer tudo de uma forma mais dinâmica”, avalia para o MD News.
Resultados equilibrados e surpresas pontuais
Segundo Isabella, a maioria dos vencedores seguiu o que já vinha sendo apontado como favorito pela crítica e pela indústria. Ainda assim, alguns resultados se destacaram justamente por fugir das previsões: “Os resultados foram muito bons, principalmente por ‘O Agente Secreto’. Isso foi uma surpresa muito legal.”
Outro momento celebrado por ela foi a vitória de Teyana Taylor. “Ela ganhar como Melhor Atriz em Drama foi merecidíssimo, porque ela está muito boa”, afirma.
Decisões pouco controversas, mas sinais de mudança
Para Isabella, o Globo de Ouro deste ano evitou grandes controvérsias. A maior decepção, segundo ela, foi a performance modesta de um filme de terror bastante comentado.
“Não achei controverso. É um filme de terror e, historicamente, o terror perde espaço diante de produções consideradas mais ‘de arte’. Talvez merecesse mais, mas não foi algo fora da curva se a gente olhar para as decisões da indústria nos últimos anos.”
Por outro lado, ela destaca como sinal positivo a diversidade linguística entre os indicados. “O que mais me surpreendeu foi o número de filmes de drama que não são de língua inglesa concorrendo na categoria principal. Isso foi muito bom.”
Uma vitória que projeta o cinema brasileiro
A consagração de O Agente Secreto (2025), que venceu como Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, e de Wagner Moura, eleito Melhor Ator em Drama, marca um momento inédito para o Brasil no Globo de Ouro. Para Isabella, o impacto vai muito além dos troféus.
“Fortalece demais. A gente não está só participando, está ganhando uma premiação mundial. Isso não acontece todo dia. O mundo está olhando para o Brasil.”
Ela ressalta que esse reconhecimento internacional tem efeitos diretos na indústria. “Isso facilita coproduções, que são o futuro do cinema. Quando a gente ganha um prêmio desse porte, outros países passam a nos ver como parceiros potenciais. Isso fomenta a indústria, a economia e o trabalho de quem vive do audiovisual.”
Nova categoria de podcast divide opiniões
A estreia da categoria Melhor Podcast foi vista por Isabella como inevitável, diante da força do formato. “Vivemos num mundo em que o podcast é extremamente presente. A gente ouve no carro, no trabalho, em casa, e existem produções muito boas.”
No entanto, a escolha do vencedor causou frustração. “Me decepcionou um pouco porque quem ganhou já é uma mulher da indústria, com nome consolidado. A categoria poderia servir para dar visibilidade a comunicadores que não têm espaço dentro do cinema ou da TV. Existiam outros podcasts, inclusive melhores.”
Ela também aponta uma incoerência: “Tem Melhor Podcast, mas não tem Melhor Documentário no Globo de Ouro. Isso me incomoda.”
Poucas injustiças
Questionada sobre produções subvalorizadas, Isabella evita falar em injustiça generalizada. “Eu não senti grandes injustiças. O único realmente ignorado da noite foi ‘Sinners’, principalmente em termos de relevância e marketing.”
Segundo ela, o restante das premiações se manteve dentro de um equilíbrio esperado. “Alguns filmes poderiam ter levado mais, mas a disputa estava muito forte.”
Impacto direto na corrida pelo Oscar
Para a crítica, os resultados do Globo de Ouro fortalecem diretamente a campanha brasileira rumo ao Oscar. “Com o Wagner Moura ganhando, eu acredito que ele será indicado a Melhor Ator, como aconteceu com a Fernanda Torres.”
Ela pondera que vencer o Oscar é outra disputa, mas vê sinais animadores. “Não é o mesmo corpo de votantes, mas o Globo de Ouro funciona como uma sinalização para a indústria: ‘prestem atenção em O Agente Secreto’. A gente já ganhou o Critics Choice e agora o Globo de Ouro.”
O otimismo é cauteloso, mas real. “Eu estou mais para o lado da gente ganhar de novo do que para o lado da gente não ganhar, mas tudo depende de como a campanha vai se desenrolar.”
Por Arthur Moreira | Revisão: Pietra Gomes
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