O mercado de trabalho brasileiro vive um paradoxo. Enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,8% no trimestre encerrado em 2026, o menor patamar da série histórica, a participação feminina segue estagnada em 53% há seis anos. Na prática, quase metade das mulheres em idade ativa não está ocupada nem procurando emprego, em contraste com os 72% de participação masculina registrados em 2025.
O fenômeno expõe o chamado “PIB do Cuidado”: um conjunto de tarefas domésticas e de assistência a filhos, idosos e dependentes que sustenta a economia e concentrado majoritariamente sobre as mulheres.
Emprego em alta, renda recorde
Os indicadores gerais do mercado reforçam o bom momento econômico. Em relação a 2022, quando o desemprego era de 11,2%, a redução foi expressiva. O número de desocupados caiu em mais de 1 milhão de pessoas nos últimos 12 meses, passando de 7,3 milhões para 6,2 milhões.
O rendimento médio real habitual alcançou novo recorde, chegando a R$ 3.679, com alta real de 5,2% no ano. Já a massa salarial atingiu R$ 371,1 bilhões mensais em circulação na economia.
“O crescimento vem sendo impulsionado pela forte demanda por trabalhadores e pela formalização nos setores de comércio e serviços”, avalia Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas do IBGE.
A barreira feminina permanece
Apesar do cenário favorável, o avanço não se distribui de forma homogênea. Enquanto a maioria dos homens em idade ativa está inserida no mercado, 47% das mulheres seguem fora da força de trabalho.
A principal razão não é falta de escolaridade ou qualificação, mas ausência de rede de apoio. Quase um terço das mulheres que não trabalham aponta o cuidado com filhos ou idosos como o principal impedimento. O impacto é direto sobre a renda e a autonomia feminina e ajuda a explicar o perfil do Bolsa Família: 83,7% das 20,5 milhões de famílias atendidas pelo programa são chefiadas por mulheres.
Dependência regional e peso do auxílio
O crescimento do emprego formal, que soma cerca de 39,2 milhões de vínculos com carteira assinada, ainda convive com fortes desigualdades regionais. Em nove estados, majoritariamente das regiões Norte e Nordeste, o número de famílias beneficiárias do Bolsa Família supera o de trabalhadores formais.
Os maiores desequilíbrios estão no Maranhão, com 460 mil beneficiários a mais que empregos com carteira assinada; no Pará, com 232 mil; e no Piauí, com 163 mil. Embora essa dependência venha recuando após revisões cadastrais e melhora da atividade econômica, o ritmo de queda desacelerou em 2026.
Na prática, o auxílio segue sendo a principal fonte de segurança alimentar e estabilidade mínima para mulheres que acumulam a chefia do lar com o cuidado integral da família.
Bolsa Família e trabalho feminino
Estudos recentes indicam que o Bolsa Família não reduz, de forma generalizada, a participação feminina no mercado de trabalho. No entanto, há correlação entre o recebimento do benefício e menor inserção de mulheres em domicílios com crianças de até seis anos, reforçando o peso da sobrecarga do cuidado.
Especialistas destacam que avaliar o impacto de programas sociais apenas pela taxa de participação no mercado é insuficiente. Segurança alimentar, acesso à educação, saúde e mobilidade social precisam integrar a análise.
O custo econômico da desigualdade
Estimativas divulgadas em fevereiro pelo FMI indicam que o Brasil poderia crescer, em média, 0,5 ponto percentual a mais por ano se reduzisse pela metade a diferença de participação entre homens e mulheres no mercado de trabalho até 2033.
O alerta ganha peso adicional diante do envelhecimento da população, que tende a reduzir a força de trabalho disponível nas próximas décadas.
Entre as medidas consideradas prioritárias estão a universalização de creches em tempo integral, políticas de cuidado para idosos, o combate efetivo à disparidade salarial: mulheres ainda recebem, em média, 22% menos que homens, e ajustes no desenho do Bolsa Família para evitar perdas abruptas de renda na transição para o emprego formal.
O Brasil de 2026 tem vagas, tem crescimento e tem demanda por mão de obra. Para as mulheres, porém, o acesso ao crachá segue condicionado a uma solução estrutural para o cuidado doméstico um gargalo social que também custa caro à economia.
Por: Laís Queiroz | Revisão: Daniela Gentil
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