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“A literatura é um ato de teimosia”: Leonardo Auricchio reflete sobre o papel social das palavras no Dia da Literatura Brasileira

Autor de “Mulheres Tristes, Amores & Revoluções” defende a literatura como ferramenta de transformação e memória em um país que ainda desafia seus escritores

Instituído em homenagem ao nascimento de José de Alencar, em 1º de maio de 1829, o Dia da Literatura Brasileira celebra o projeto de uma expressão artística genuinamente nacional. Se o autor de Iracema buscou, no século XIX, desvencilhar nossas letras da influência europeia para retratar as raízes do Brasil, hoje, escritores contemporâneos mantêm viva essa “teimosia” de narrar nossas próprias complexidades. Em meio a esse cenário de celebração e reflexão, o MD News conversou com o escritor, professor e advogado Leonardo Auricchio, autor da ficção “Mulheres Tristes, Amores & Revoluções”. Para ele, escrever vai muito além de criar ficção.

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“A literatura, desde o momento em que a primeira palavra é escrita, deixa de ser apenas do autor e passa a ser um espelho da sociedade. Encaro essa responsabilidade como um pacto de honestidade: a ficção não deve ser uma fuga da realidade, mas uma lente que a amplia. Ao conduzir a história de personagens como de Ana ou Maria, minha missão é dar dignidade às suas dores e humanidade aos seus silêncios.”

O autor também aproveitou para refletir sobre a importância social da literatura. “Reside justamente em forçar o leitor a olhar para o que, muitas vezes, tentamos ignorar no cotidiano – como as rachaduras de um asfalto que engole sonhos ou o desamparo de quem busca liberdade.”

Mulheres Tristes, Amores & Revoluções

Essa percepção ganha forma em seu romance, que mergulha na trajetória de personagens marcadas por contextos sociais e conflitos internos.

“A vivência na advocacia me ensinou a estruturar o caos. A investigação sobre a verdade, a colheita de fatos e a necessidade de organizar argumentos com precisão foram ferramentas fundamentais para a arquitetura do romance. No livro, essa influência aparece na forma como os eventos são conectados — como as engrenagens de um sistema (policial ou familiar) que, muitas vezes, esmagam o indivíduo.”

A inspiração para a obra surgiu durante uma viagem a Cuba. “ O pano de fundo de uma revolução me pareceu perfeito para contar a história geracional de Ana, Maria e Yvie, cujos destinos se entrelaçam em tramas sociais e lutas individuais.”

Equilíbrio de temas

Apesar da densidade dos temas, equilibrar emoção e contexto foi um dos maiores desafios durante a escrita. O autor destaca a necessidade de manter a sensibilidade sem permitir que o peso político sufoque a narrativa.

“É um exercício constante de equilíbrio: a história precisa de base e estrutura, mas ela só respira através dos sentimentos dos personagens. Harmonizar a brutalidade da luta contra um regime ou de um conflito interno, com a delicadeza de um sorriso ou a descoberta de um novo amor exige paciência, quase como o trabalho artesanal que descrevo na própria obra.”

Luta das mulheres

A obra também evidencia a luta feminina, um tema que, segundo ele, não pode ser tratado com neutralidade. “O livro evidencia como a dor e a maldade se instala — seja na tentativa de silenciar, na agressão física ou no controle da vida alheia. Escrever sobre isso é uma forma de resistência, um grito de alerta.”

O autor também reflete: “O mal, o ruim, prospera no silêncio e na invisibilidade. Quando dou voz às minhas ‘Mulheres ‘, estou expondo as feridas que a sociedade, por vezes, tenta varrer para baixo do tapete. É necessário que a ficção seja um campo de batalha onde essas questões possam ser lidas e debatidas sem máscaras.”

O Legado e a Resistência

A escolha do dia 1º de maio como marco literário nos remete ao papel de Alencar como o “patriarca” das nossas letras, ao criar vertentes que até hoje ecoam na produção nacional: a indianista, a regionalista, a histórica e a urbana. Ao longo das décadas, essa identidade foi lapidada por gênios como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, que elevaram o texto brasileiro ao patamar universal.

Para Leonardo Auricchio, dar continuidade a essa linhagem é um desafio cotidiano. “O desafio não está apenas na publicação ou na visibilidade, mas na construção de uma cultura que valorize a própria voz, o próprio pensamento e as próprias narrativas. Ser escritor aqui é aprender a cultivar esperança em um terreno, por vezes, pedregoso, mas que, quando desabrocha, entrega uma beleza e uma força únicas. A data nos lembra que nossa literatura é nossa identidade; sem ela, somos um povo sem memória.”

Convite à leitura

Mais do que uma obra sobre dor, Mulheres Tristes é um convite à empatia: “Gostaria de convidá-los a olhar para além da capa. Convido o leitor a não ter medo da tristeza ou das cicatrizes que os personagens carregam. Mulheres Tristes não é apenas sobre o sofrimento, mas sobre a resistência que nasce quando tudo parece perdido. É um convite para quem busca uma história que encontra na conexão humana e no amor a única saída possível. Venham conhecer a Ana, Maria e Yvie, e talvez vocês descubram um pouco mais sobre suas próprias histórias.”

Além do 1º de Maio: Datas que Marcam Nossa Língua

Para além do Dia da Literatura Brasileira, outras datas reforçam a importância do nosso idioma e dos nossos livros:

  • 5 de maio: Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP.
  • 29 de outubro: Dia Nacional do Livro (homenagem à fundação da Biblioteca Nacional).

Em tempos de mudanças constantes, a literatura segue como um território de resistência, onde histórias contadas transformam quem as lê diariamente. 

Por: Arthur Moreira | Revisão: Laís Queiroz

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