A crise no fornecimento de combustível de aviação já provoca impactos concretos no setor aéreo europeu e começa a atingir passageiros em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil.
O alerta foi feito pela Agência Internacional de Energia, que estima que os estoques na Europa podem durar cerca de seis semanas, caso não haja reposição suficiente após a interrupção de importações do Oriente Médio.
O principal fator por trás da crise é o bloqueio do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde escoa grande parte do petróleo e derivados utilizados na produção de querosene de aviação. Antes do conflito, a região respondia por aproximadamente 75% das importações europeias desse combustível.
Se o cenário atual persistir, com restrições no Estreito de Ormuz, especialistas alertam para o risco de cancelamentos de voos em larga escala nas próximas semanas, com reflexos que podem atingir inclusive rotas entre Europa e Brasil.
Com a oferta reduzida, os preços mais que dobraram em poucas semanas, pressionando diretamente as companhias aéreas, e os efeitos já são visíveis.
A KLM anunciou o cancelamento de cerca de 160 voos programados para o próximo mês, o equivalente a aproximadamente 1% da sua operação europeia. A empresa afirma que o aumento dos custos tornou parte das rotas financeiramente inviável.
Já a Lufthansa confirmou o encerramento antecipado da subsidiária regional CityLine e a retirada de 27 aeronaves menos eficientes, como forma de reduzir despesas diante da alta no combustível.
A Wizz Air relatou dificuldades de abastecimento em aeroportos italianos, embora tenha indicado expectativa de normalização nas próximas semanas.
A Ryanair ainda não realizou cortes imediatos, mas já admite a possibilidade de reduzir até 10% dos voos no final do verão europeu caso o cenário não melhore.
Enquanto isso, a easyJet informou um impacto direto nas contas: cerca de 25 milhões de libras em custos adicionais apenas no mês de março, além de queda na procura por passagens.
O comportamento dos passageiros também mudou. As reservas estão sendo feitas mais próximas da data das viagens, e há uma migração de destinos, com menor procura pelo Mediterrâneo Oriental.

Impacto para brasileiros
O efeito da crise já começa a ser sentido também por quem viaja do Brasil. A ABEAR aponta que o combustível já representa cerca de 45% dos custos operacionais das companhias aéreas brasileiras.
Na prática, isso pode significar passagens mais caras, redução na frequência de voos internacionais e maior incerteza em conexões dentro da Europa.
O economista-chefe da Rystad Energy, Claudio Galimberti, alerta que o risco para o Brasil está diretamente ligado à dependência dos hubs europeus.
Segundo ele, mesmo com produção própria de querosene de aviação, o país pode ser afetado porque aeronaves que partem da Europa rumo ao Brasil dependem do abastecimento em aeroportos estratégicos como Frankfurt e Madri, que já operam sob pressão e com estoques em níveis críticos.
A situação preocupa especialmente passageiros que utilizam conexões nesses grandes centros, operados principalmente por Lufthansa e KLM, duas das empresas que já adotaram medidas concretas.
Apesar dos cortes iniciais estarem concentrados em rotas dentro da Europa, o aumento do custo do combustível pressiona toda a operação global, incluindo voos de longa distância para destinos como São Paulo e Rio de Janeiro.
Especialistas alertam que, se o bloqueio persistir e a oferta não for normalizada, o cenário pode se agravar rapidamente nas próximas semanas, justamente durante o período de maior demanda do ano.
O resultado pode ser uma combinação de passagens mais caras, menos opções de voos e maior instabilidade no transporte aéreo internacional.
Por David Gonçalves, correspondente MD News na Europa | Revisão: Daniela Gentil
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