Seja na prateleira do supermercado, na vitrine do shopping ou nas bilheterias de grandes estádios, um sentimento tem ganhado cada vez mais espaço nas decisões de consumo: a saudade. A nostalgia deixou de ser apenas uma memória afetiva para se tornar um dos principais motores de consumo no Brasil.
O comportamento é impulsionado pela busca por conforto emocional. Em um cenário marcado por excesso de informações, mudanças rápidas e rotina acelerada, produtos, experiências e referências ligadas ao passado oferecem uma sensação de familiaridade. Uma pesquisa da PiniOn mostra que 56,8% dos brasileiros já compraram produtos ou serviços motivados por lembranças afetivas.
O que ativa a memória do consumidor?
Os gatilhos variam, mas estão ligados à mesma necessidade de pertencimento e identificação. O levantamento aponta que a nostalgia aparece com mais força em alguns segmentos específicos:
• Brinquedos e jogos retrô lideram as preferências, citados por 37,1% dos entrevistados.
• Música e mídia aparecem em seguida, com 34,3% das menções relacionadas a artistas, programas e trilhas sonoras do passado.
• Vestuário inspirado em décadas anteriores atrai 26,1% dos consumidores.
• Gastronomia, por meio do relançamento de produtos clássicos, mobiliza 24,3% do público.
A pesquisa também mostra que oito em cada dez brasileiros já compraram, na vida adulta, algo que desejavam muito na infância ou adolescência, mas que não puderam adquirir naquela época.
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A ciência do afeto
Para o psicólogo clínico André Sena Machado, mestre e doutor em Psicologia Clínica e Neurociências pela PUC-Rio, o fenômeno não representa regressão ou infantilização, mas uma estratégia emocional adotada por muitos adultos.
“Esses consumidores representam uma busca consciente por prazer, por autorregulação emocional e pela recuperação da espontaneidade muitas vezes sufocada pela vida adulta. Não é algo patológico, mas uma forma contemporânea de autocuidado e de integração da criança interior”, afirma.
Segundo o especialista, objetos, músicas e experiências associados ao passado funcionam como importantes ativadores de memória.
“Os objetos e sons da infância ativam memórias autobiográficas de um período que a mente registra como mais seguro e simples. É como se o cérebro recebesse um estímulo positivo do passado, liberando neurotransmissores associados ao prazer e ao bem-estar”, explica.
Shows que se transformam em experiências de memória
A força da nostalgia ajuda a explicar o sucesso de projetos musicais que revisitam repertórios marcantes. Quando Sandy & Junior anunciaram a turnê Nossa História, em 2019, o que se viu foi um fenômeno de público. A série de apresentações marcou o reencontro da dupla após anos longe dos palcos e mobilizou fãs que cresceram acompanhando sua trajetória.
O impacto foi refletido também nos números. Segundo levantamento da Pollstar, empresa especializada no mercado de entretenimento ao vivo, a turnê registrou a segunda maior bilheteria média por apresentação do mundo naquele ano, ficando atrás apenas de Elton John e superando artistas como Ariana Grande, Post Malone e Guns N’ Roses.
O mesmo movimento pode ser observado em projetos como a turnê Tempo Rei, de Gilberto Gil. Anunciada como sua despedida dos grandes palcos, a série de apresentações reuniu diferentes gerações em torno de um repertório que atravessa décadas da música brasileira e da própria história do país.
Mais recentemente, Marisa Monte também voltou a percorrer o Brasil revisitando canções que marcaram diferentes momentos de sua carreira. Em comum, esses projetos demonstram a capacidade da música de reativar memórias afetivas e fortalecer vínculos entre artistas e público.
Luan Santana e o desejo de voltar ao início
Nesse cenário, Luan Santana ocupa um lugar de destaque. A turnê Registro Histórico foi construída justamente a partir da valorização da trajetória do artista e da conexão emocional criada ao longo de quase duas décadas de carreira.
Ao reunir sucessos como “Meteoro da Paixão”, “Você Não Sabe o Que É Amor”, “Te Vivo”, “Escreve Aí”, “Garotas Não Merecem Chorar” e “Dia, Lugar e Hora”, o espetáculo resgata momentos que acompanharam diferentes fases da vida de seus fãs.

O sucesso da turnê em estádios pelo país mostra que o público busca mais do que entretenimento. As apresentações funcionam como uma oportunidade de revisitar lembranças associadas a relacionamentos, amizades, conquistas e períodos importantes da juventude.
Após esgotar duas noites no Allianz Parque, em São Paulo, reunir multidões em Belo Horizonte e lotar apresentações em cidades como Cuiabá e Rio de Janeiro, o projeto consolidou-se como uma das maiores turnês da carreira do cantor.
“Fico lembrando de todas as viagens e turnês que fizemos. Digo fizemos porque é um trabalho de equipe, com o reconhecimento dos fãs. São 18 anos de estrada, nos quais viajamos o país e o mundo com a música. Este projeto simboliza a minha arte em audiovisual, em mais de 40 músicas. Agora, vamos mostrar essa história de forma plena para o palco, em uma turnê de grandes proporções”, afirma Luan Santana.
Com estrutura de grande porte, cenários imersivos, passarela em formato de “S” e elementos visuais inspirados em diferentes fases de sua carreira, Registro Histórico se apoia justamente em um dos comportamentos mais fortes do consumo atual: a valorização da memória afetiva.
Por: Laís Queiroz | Revisão: Daniela Gentil
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