Encravado no território da África do Sul, o Lesoto é um dos países menos conhecidos do mundo e, ao mesmo tempo, um dos mais vulneráveis. Com cerca de 2,3 milhões de habitantes, o pequeno reino africano enfrenta indicadores sociais críticos, forte dependência externa e uma crise estrutural que afeta diretamente a vida da população.
O governo declarou estado de calamidade nacional, com vigência até 30 de junho de 2027, conforme anunciou a vice-primeira-ministra Nthomeng Majara. A medida reconhece oficialmente a deterioração das condições econômicas, sociais e de saúde pública no país.
O desemprego atinge aproximadamente 30% da população economicamente ativa. Entre os jovens, o índice se aproxima de 50%, revelando uma geração inteira sem perspectivas claras de inserção no mercado de trabalho e cada vez mais exposta à informalidade e à migração forçada.
Na área da saúde, o cenário é ainda mais grave. O país registra cerca de 4 mil mortes por ano relacionadas à AIDS, número expressivo para uma população pequena e que ajuda a explicar por que a expectativa de vida gira em torno de 42 anos, uma das mais baixas do mundo.
A epidemia de HIV expõe também uma profunda desigualdade de gênero. Entre mulheres adultas, a taxa de prevalência chega a aproximadamente 30,4%, significativamente superior à dos homens. Especialistas associam esse cenário a fatores estruturais como violência de gênero, limitações sociais, pobreza e menor autonomia feminina sobre decisões relacionadas à própria saúde.
O impacto da crise vai além dos números. A maioria das mortes ocorre entre adultos de 20 a 50 anos, faixa etária economicamente ativa, o que compromete a força de trabalho, enfraquece a economia local e aumenta o número de órfãos e famílias dependentes de assistência social.

As desigualdades também se refletem no campo social e legal. Em algumas regiões, práticas tradicionais ainda restringem o direito das mulheres à herança de terras e bens quando há herdeiros homens. Casamentos precoces persistem em comunidades isoladas, apesar de a legislação civil estabelecer 18 anos como idade mínima. O aborto é permitido apenas em situações extremas, quando a vida da gestante está em risco.
O país enfrenta ainda altos índices de violência sexual, com taxas de estupro frequentemente citadas entre as mais elevadas do mundo. Não há legislação específica que proteja a população LGBT contra discriminação, o que amplia a vulnerabilidade social de minorias.
Resposta internacional tenta conter colapso econômico
Diante do agravamento da crise, organismos internacionais passaram a reconhecer oficialmente a vulnerabilidade estrutural do Lesoto. Em março deste ano, o Banco Africano de Desenvolvimento lançou uma estratégia de investimento de 209 milhões de dólares para impulsionar a economia do país entre 2025 e 2030.
O plano foi apresentado em Maseru e prevê investimentos em infraestrutura sustentável, incluindo energia, água e tecnologias da informação, além do fortalecimento da capacidade institucional do Estado e do estímulo à competitividade do setor privado. Pela primeira vez, a estratégia também inclui operações não soberanas, com o objetivo de atrair investimento privado para setores como turismo.
Autoridades do Banco alertaram, no entanto, que a situação fiscal do Lesoto permanece altamente vulnerável a choques externos, como a alta dos preços globais do petróleo e possíveis quedas nas receitas da União Aduaneira da África Austral, que representam uma parcela significativa do orçamento nacional.
Embora o programa represente uma tentativa de reorganização econômica de médio prazo, seus efeitos não são imediatos e não alteram, no curto prazo, os indicadores sociais críticos que colocam o Lesoto entre os países mais frágeis do continente.
Pouco visível no noticiário internacional, o país vive uma crise profunda e prolongada, na qual crescer, trabalhar e sobreviver seguem sendo incertezas diárias. Mais do que uma emergência econômica ou sanitária, o cenário revela desigualdades históricas que continuam moldando o presente e limitando o futuro de grande parte da população.
Por: David Gonçalves, correspondente do MD na Itália
Revisão: Laís Queiroz
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