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Hospital Colônia, marcado pelo “Holocausto Brasileiro”, fecha as portas

Últimos pacientes foram transferidos para residências terapêuticas; fechamento marca fim de um dos capítulos mais sombrios da saúde mental no Brasil

O Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, conhecido nacionalmente como símbolo do chamado “Holocausto Brasileiro”, teve suas atividades encerradas oficialmente nesta segunda-feira (25). A desinstitucionalização dos últimos 14 pacientes da unidade foi marcada por uma cerimônia simbólica que reuniu autoridades, profissionais da saúde, ex-pacientes e familiares.

A unidade, considerada o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais, tornou-se ao longo das décadas um retrato do modelo manicomial brasileiro, marcado por superlotação, abandono e graves violações de direitos humanos.

Segundo a Prefeitura de Barbacena, o fechamento representa o fim de “um capítulo doloroso da saúde mental no Brasil” e o início de uma nova fase baseada “na dignidade humana, na liberdade e no cuidado humanizado”.

Fundado em 1903 como Sanatório de Barbacena, o espaço foi criado inicialmente para o tratamento de tuberculose. Em 1911, passou a funcionar como hospital psiquiátrico. Com o passar dos anos, o local ficou conhecido pelas condições desumanas enfrentadas pelos internos.

Durante a cerimônia de encerramento, foi realizado o fechamento simbólico da porta do Pavilhão Antônio Carlos com um cadeado.

“Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta. A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes”, afirmou o secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais, Fábio Baccheretti.

Moradores passaram décadas internados

De acordo com o Governo de Minas Gerais, os moradores transferidos viveram, em média, 49 anos internados na instituição. Atualmente, a idade média dos pacientes é de 73 anos, e três deles chegaram ao hospital antes dos 15 anos de idade.

Os últimos pacientes foram encaminhados para Serviços de Residências Terapêuticas (SRTs), estruturas inseridas na comunidade e voltadas à reconstrução de vínculos sociais, autonomia e cidadania.

Atualmente, Barbacena conta com mais de 160 moradores acolhidos nessas residências terapêuticas.

Mesmo com o encerramento definitivo do Hospital Colônia, o Centro Hospitalar Psiquiátrico seguirá funcionando como referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais dentro da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Foto: Prefeitura de Barbacena MG

Tragédia histórica

Parte da história do Hospital Colônia permanece sem registros completos, mas os números conhecidos revelam a dimensão da tragédia.

Entre 1942 e 2020, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição. Dessas, aproximadamente 24 mil morreram. Em determinados períodos, o hospital chegou a reunir cerca de 3.500 pacientes simultaneamente.

Muitos internos eram levados ao local sem diagnóstico de doença mental. Situações de abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico leve e até comportamentos considerados inadequados pela sociedade eram suficientes para o confinamento.

A presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado, destacou o simbolismo do encerramento da unidade.

“Quando era estudante, visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defender e reparar esse passado”, declarou.

“Holocausto Brasileiro”

As violações cometidas no Hospital Colônia ganharam repercussão nacional principalmente após o lançamento do livro-reportagem Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex.

A obra, publicada em 2013, revelou relatos de tortura, abandono e maus-tratos sofridos por milhares de pessoas internadas compulsoriamente no local, muitas delas sem qualquer diagnóstico psiquiátrico.

O livro é considerado um marco do jornalismo investigativo brasileiro e ajudou a ampliar o debate sobre a reforma psiquiátrica e os direitos humanos no país.

Em 2016, a história também foi retratada no documentário Holocausto Brasileiro, produzido pela HBO, baseado na obra de Daniela Arbex. O documentário entrou no catálogo da Netflix em 25 de fevereiro de 2024 no Brasil, fazendo o caso ter mais visibilidade.

Por João Vitor Mendes | Revisão: Daniela Gentil

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Marcia Dantas

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